Capacitação é fundamental para manter empresa de artesanato

Artesão que quer investir no negócio próprio precisa aprender administrar para garantir sucesso nas vendas

por André Ribeiro, Oda Paula Fernandes e Victor Monteiro

Investir dinheiro e tempo na empresa de artesanato sustentável dos sonhos sem antes fazer uma pesquisa de mercado, aumenta os riscos de falência.  Para administrar uma empresa nesse ramo é preciso buscar ajuda especializada, tanto para aprender novas técnicas de aprimoramento dos trabalhos a serem realizados, quanto para avaliar qual a matéria prima mais indicada, qual o fornecedor que melhor atende à demanda e ainda, para quem vender as peças confeccionadas no ateliê. Essa capacitação pode demorar meses, tempo suficiente para artesão ter certeza que está preparado para trabalhar com artigos sustentáveis e que é o momento certo de abrir o próprio negócio.

A gerente de Unidade Coletivo de Atendimento do Sebrae-DF (UCA-DF), Auxiliadora França, diz que a capacitação do artesão é fundamental para manter o negócio em funcionamento e gerando lucro para o investidor. E como primeiro passo, antes de abrir o negócio, é importante investir no Plano de Negócios. “O plano te ajuda a responder [se] vale a pena abrir, ou vale a pena manter, ou vale a pena ampliar. A gente indica por que é o momento de você pensar na sua ideia e conhecer bem o seu negócio”, afirma.

Segundo Auxiliadora, abrir e administrar o próprio negócio no setor sustentável é uma tarefa difícil, até mesmo para quem é formado em administração de empresas. Mas os problemas estão mais presentes nas empresas em que o gestor não tem capacitação direcionada ao negócio que escolheu. Pensando nisso o Sebrae criou um produto voltado para esse público. É o “Programa Próprio”, que capacita micro empreendedores do ramo de artesanatos sustentáveis. “Grande parte dos artesãos tem pouca maturidade empreendedora. O artesão tem dificuldade de enxergar o artesanato como um empreendimento, como um negócio”, afirma.

Capacitação

O Programa Próprio do Sebrae foi desenvolvido para atender às necessidades do artesão, dividido em cinco módulos, onde o empreendedor pensa no empreendimento aos poucos, por etapas. A primeira etapa do programa é chamada “Portas Abertas”, específica para ensinar o artesão a coletar os materiais que vai usar na confecção de cada peça, como escolher as sementes, a madeira, o papel.

Depois de aprender sobre a coleta e armazenamento da matéria-prima passa para a fase “Despertando o Empresário”. Aqui nessa fase são desenvolvidas as características de um empreendedor – o que precisa ter para alcançar o sucesso e manter a longevidade do negócio.

Em seguida o artesão passa por uma fase chamada “Coleta de Informações”, que para a gerente do programa, é a parte mais importante. “É ir a campo. Sair perguntando. Entender o que meu cliente compra, o que ele quer comprar, meu produto é bom ou não, meu produto é viável ou não, entender o fornecedor, entender o mercado. Aí ele vai conhecer o negócio”, enfatiza a gerente de UCA-DF.

Após decidir e entender todas as atividades que envolvem a estrutura da empresa é hora de colocar no papel, fazer o “Plano de Negócio”. Com o plano em mãos, o empreendedor sabe exatamente quais sãos os pontos fracos da empresa e quais são os pontos fortes. “Aqui é onde ele pode errar, no mercado ele não pode. Esse erro geralmente é fatal para a empresa”, declara.

A quinta fase é o “Acompanhamento”, quando é analisada a viabilidade de implantar o negócio. Nesta fase, o artesão vai determinar onde abrir o ponto de venda, determinar como ele vai atrair os clientes e até mesmo reconhecer se é necessário fazer aquisição de empréstimo bancário.

Linha de crédito

O assistente sênior da Diretoria do Micro e Pequeno Empresários do Banco do Brasil (Dimpe), Esdras Magalhães, concorda que quando um empresário quer fazer empréstimos bancários para investir na empresa, o primeiro passo, depois de buscar capacitação, é não ter nenhum tipo de dívida em qualquer banco. Depois ele precisa mostrar para o banco o quanto ele tem na conta corrente, para assim o banco saber o quanto de crédito pode ser dado para o empresário.

Essa primeira regra é essencial para que o valor seja emprestado ao artesão empreendedor. Mas segundo Magalhães, isso é para o tipo de empréstimo rápido e baixo valor, até R$ 50 mil. Para o empresário, montar um negócio, além de passar por avaliação pessoal no Serasa, é preciso apresentar ao banco um projeto de negócio. Nesse projeto é imprescindível conter todas as informações do negócio quanto à viabilidade técnica de execução da empresa, com aval da consultoria especializada que acompanhou a montagem desse plano de negócio e assinatura de um economista, preferencialmente cadastrado na Ordem dos Economistas do Brasil (OEA).

Após o banco analisar dados relacionados ao empresário e ao negócio que ele pretende investir, e tendo verificado as condições do cliente, o banco concede uma linha de crédito, que é um acordo feito pelas duas partes. As empresas precisam de Capital de Giro, que faz parte do ciclo operacional de uma empresa. É dinheiro que o empresário vai usar para pagar fornecedores, compra de matéria-prima, entre outras coisas.

Para o banco determinar qual o valor que a empresa vai pagar como empréstimo, será avaliado o Capital de Giro dessa empresa. As taxas variam de cliente para cliente e depende das origens de recursos. Por isso é importante ter em mãos o Plano de Negócios na hora de solicitar um financiamento. Quanto mais a empresa crescer, mais linhas de crédito ele recebe para reinvestir no negócio e ampliar o campo de atuação, tanto para vendas quando para diversificação de produtos. Vale ressaltar que para cada tipo de negócio existe um plano de linha de crédito.

Negócio e sustentabilidade

O economista, artesão e design de móveis, Tunico Lages, trabalha com madeira recolhida nos arredores de Brasília e entorno do Distrito Federal. Após uma recessão econômica do Brasil na década de 1970, o economista resolveu deixar de trabalhar com investimentos na Bolsa de Valores para fazer móveis ergométricos a partir de galhos de árvores, todos descartados pela natureza.

Nesse período de chuvas, que tem muitos ventos e várias árvores caem. Ele percorre até 200 quilômetros em busca de madeira para armazenar e dar forma, transformando em chaise, cadeiras e bancos. A equipe do Tunico é composta por artesãos, escultores e marceneiros, que segundo ele, é quem faz a diferença na hora de definir que móvel um tronco vai ser. O olhar do profissional junto com a equipe, empresta características peculiares a cada produto. “Eu trabalho com o que a sociedade e a natureza rejeitam. Esses homens que estão comigo foram renegados, as madeiras que recolhemos foram descartadas. E é nesse contexto que cada peça ganha vida nas mãos habilidosas desses artistas”, enfatiza o designer de móveis.

Para o designer, que está preparando uma parceria onde o ateliê será representado em Los Angeles (EUA) trabalhar com esse tipo de artesanato é um presente da natureza para o homem. “Se cada um soubesse como aproveitar melhor o que a natureza descarta, a nossa vida ficaria mais bela, pois com um pouco de paciência é possível fazer obras incríveis”, acrescenta.

Vicente Rodrigues dos Santos, 56 anos, trabalha com artesanato sustentável desde que se mudou para o Distrito Federal na década de 1980. O agricultor veio com a família em busca de novas oportunidades quando fugia da seca na cidade de Crato, sertão cearense. Vicentinho, como é conhecido entre amigos e família, começou a trabalhar com o artesanato feito a partir de frutos, bago, sementes, galhos e folhas de plantas. Ofício que ele aprendeu com a mãe.

No primeiro ano que estava no DF, Vicentinho passou a usar materiais diferentes dos que usava no Ceará, quando usava cabaça e palha de milho para fazer as bonecas e bichos da caatinga brasileira. E ele diz que a adaptação foi difícil. “Eu não sabia que aqui não tem cabaça igual tem lá na minha terra. Foi muito ruim no começo, mas a gente se vira e aprende, ou aprende ou passa fome”, lembra. Agora, ele usa casca de coco, pedaços de madeiras recolhidas no Cerrado, corda de algodão. Mas a principal matéria-prima do artesão é a palha da bananeira.

O artesão lembra que decidiu buscar capacitação em 2001 para aprimorar os trabalhos e agregar valor aos produtos. Ao abrir o ateliê ele não sabia como cobrar por cada item, não tinha ideia de quanto gastava para manter a produção. Dono de um pequeno ateliê, em casa mesmo onde trabalha e vende as peças que também são exportadas para outros estados brasileiros, ele lembra a importância do incentivo e apoio que recebeu de profissionais e colegas. Agora, segundo ele, tem orgulho de dizer que é artesão, e nem pensa em trabalhar em cooperativa. “Tinha gente que achava que eu era um desocupado. Agora não, eu tenho meu negócio, sou meu patrão e sei como tenho que trabalhar”, comemora.  “Espero continuar fazendo o que gosto: trabalhar catando essas palhas e folhas para transformar isso em arte, e é arte bonita”, comemora o artesão.

Editora de site, Simone Oliveira, 25 anos diz que não deixaria a carreira para investir num negócio próprio no ramo de artesanato sustentável. Para ela, o custo-benefício não compensa, uma vez que o retorno do investimento não é garantido. “Não vale a pena investir, pois, o retorno financeiro não é imediato. Sem contar que, o que vou ganhar é menos do que o meu emprego atual me paga”, avalia.

Matéria de Rádio

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